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Zeca Pagodinho

Quando li o título do CD "Ser Humano", lembrei das intensas chuvas que desabavam sobre as terras de Xerém e, na cena, Zeca Pagodinho, descalço sobre a lama, prestando solidariedade aos necessitados. Sem camisa, Cosme & Damião tatuados no peito, Zeca é a generosidade, é a amizade. Mão estendida, Zeca é - dos grandes que conheci - um ser humano. 
 
O disco começa com um maxixe na levada boa de banjo e sete cordas. AMOR PELA METADE abre o álbum com todos os instrumentos do salão. Rildo Hora, diretor e arranjador em cinco faixas, sugere nas cordas da introdução o filme que existe na "tela" desse trabalho. Autores, Dunga e Gabrielzinho do Irajá, diferentes gerações e a mesma dedicação ao samba. Na gaita do mestre Rildo, a elegância de sempre. O repertório promete!
 
Samba conduzido com violinos e a caixa do Mestre Trambique, SER HUMANO tem uma letra que emociona, assinada por Claudemir, Marquinho Índio e Mário Cleide. Zeca interpreta cada palavra com a força de uma oração. Versos com rimas autobiográficas, a música evolui, coro e solos; Pretinho da Serrinha, a guitarra de Zé Carlos, mais um sopro do despojamento do artista: - Um lugar pra todos.
 
Nelson Rufino é o autor de MANGAS E PANOS, poesia pura. Rufino entende a alma do Zeca, um baiano que conhece bem as ladeiras de Irajá. Bandolim, viola caipira e a caixinha de Ubirany, cerejas desse bolo. Como diz a letra, "Joga alegria nesse pranto que rolou...".
 
O disco surpreende na distorcida guitarra de Pepeu Gomes anunciando A MONALISA, título maravilhoso para a inspirada música composta pela dupla Zé Roberto e Adilson Bispo. Zeca contorna as notas altas com a divisão que o consagrou. A sacada de unir Monalisa à mulher amada é de dar inveja. Fernando Merlino, no piano elétrico, ao lado do mito Pepeu Gomes, acrescenta charme ao sorriso da madona.
 
Novidade no repertório, Marcelinho Moreira e Fred Camacho, juntos ao já veterano Dudu Nobre, assinam a bela ETC. E TAL. Samba de craques, quase um sincopado na voz de Zeca Pagodinho. Em tempo, Zeca com essa dicção carioca que arrebatou o Brasil e o mundo, envolve a música de tal intensidade que já escuto o refrão nas rodas da cidade. Mais um arranjo de belo e inesperado final.
 
Perdoe a intimidade, mas com que elegância meus amigos da Velha Guarda da Portela cuidam dos desamores em seus sambas. O arranjo é do craque e irmão Paulão 7 Cordas para essa obra-prima PERDÃO PALAVRA BENDITA, novo clássico de Monarco e Mauro Diniz. O timbre das pastoras, no corpo de um coro cheio de bambas, como Serginho Procópio e Guaracy, emociona. Parafraseando o verso, Monarco: Sete letras de vida.
 
SAMBA NA COZINHA, que beleza! A minha cara! Serginho Meriti, Serginho Madureira e Claudinho Guimarães, a boa malandragem escrita no partido sincopado. Com a intimidade dos temperos, Zeca batuca na costela, refoga o bom humor pra festa no quintal. Detalhe: dois cavacos, Henrique Cazes e Galeto, ditando o ritmo cadenciado.
 
Sempre inusitado, o Trio Calafrio [Barbeirinho do Jacarezinho, Marcos Diniz e Luiz Grande] traz o subúrbio para o disco. MANÉ RALA PEITO é o extrato da carioquice na forma de samba. Hilário, Pedro Bismarck, o eterno Nerso da Capitinga, é o fofoca desse enredo. O trombone de Fabiano Segalote é suingue de cascudo, um herdeiro de Roberto Marques. Sem contar o "rufar" do ícone Carlinhos Pandeiro de Ouro na introdução.
 
E segue o parador! SÓ NA MANHA, de Brasil, Gilson Bernini e Xande de Pilares, é tiro certeiro no apetite popular. Cheio de energia, o samba corre no trilho do repique de mão de Ubirany, o nosso "chapinha" soando na pele os dedos de quem inventou o instrumento. Zeca está solto, voz perfeita, dono da situação, imbatível nesse compasso.
 
A generosidade desse ser humano, Zeca Pagodinho, contém o compositor nato, melodia apurada, nascida à sombra da tamarineira. É dessa raiz, no fundo da história juntando outros frutos, pra sempre reunidos, que nasceu FOI EMBORA. Dele, Arlindo Cruz e Sombrinha, soa como linha de frente de um time invicto. Mauro Diniz e Paulão 7 Cordas dão o andar da caminhada. Um único samba pra que todos participem. Um ser humano.
 
O disco gira os últimos "sulcos" e uma saudade aperta. Rara parceria, NAS ASAS DA PAIXÃO é um samba dolente de Marcos Valle e o imortal Luiz Carlos da Vila. A faixa teve arranjo e regência do querido Roberto Marques, anos na banda do anfitrião. Introdução de gafieira, naipe de fluguel, trombone e flauta, graves de fazer chorar. Cercado de referências, o registro ainda tem um fraseado delicado do Marcos Valle na carrapeta dos teclados. É o ser humano Zeca mantendo a obra até na ausência.
 
Mãos dadas, o artista apresenta o jovem Juninho Thybau, num samba com sotaque de outra época. Os "erres" refletem o TEMPO DE MENINO de Kiki Marcellos e o próprio Thybau. Samba feito com a simplicidade desse passado em recordação. Batismo melhor, não existe.
 
A penúltima música tem grife: Almir Guineto e Adalto Magalha, dois gênios juntos a serviço do samba. Uma ode, A SANTA GARGANTA me faz imaginar a plateia embevecida com a emoção do cantor, versos de confidência, cordas da natureza, cordas afinadas na inspiração que o maestro Leonardo Bruno escreveu. Uma maravilha como tantas outras dessa dupla na mesma linha.
 
Aberta a cortina, lotado o salão, BOCA DE BANZÉ fecha esse trabalho de inéditos sambas, futuros sucessos nas rodas do Brasil. Efson e Paulinho Resende são os autores. Dois amigos, um já partiu, se despede Zeca na margem da partitura, Efson, tão alegre quanto o banzé desse fofoqueira de vila. O arranjo é de Nilton Rodrigues, um ás quando a conversa vira trompete e outros metais. 
 
Impossível não sentir a presença desse ser humano Zeca Pagodinho na sala da tua casa quando aumentarem os alto-falantes. É um estado de espírito que contagia, sensação de vê-lo em cada botequim do subúrbio, num quiosque desses sem reforma, ao teu lado na igreja de São Jorge, no teu coração de sambista.
 
Melhor título, não seria. Ser Humano. Seja bem vindo.
 
Moacyr Luz
Abril de 2015
 

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